Artigo
Relatório GEO Brasil 2025 expõe estratégia ambiental brasileira: negar para governar!
Janielly Carvalho Camargo
Bióloga , Mestre , Doutora em Ciências Ambientais e estudante de jornalismo.
Opinião
O Relatório GEO Brasil 2025 chega ao debate público como um diagnóstico definitivo: a crise ambiental no Brasil deixou de ser uma previsão científica distante e passou a ser uma realidade concreta, mensurável e cotidiana. Ainda assim, o país insiste em tratar a degradação ambiental como tema secundário, refém de disputas ideológicas político-partidárias e de um negacionismo que, longe de ser ingênuo, consolidou-se como escolha política e estratégia de marketing eleitoral.
Coordenado no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o relatório é categórico ao afirmar que o Brasil enfrenta simultaneamente a chamada tríplice crise planetária, resultante de uma combinação desastrosa entre mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição. Não se trata de alarmismo, mas de dados científicos consolidados e amplamente publicados. Ainda assim, mesmo diante de evidências científicas robustas, parcela significativa da classe política e do debate público segue operando na lógica da negação, da minimização dos impactos e da normalização do desastre.
Essa negação se materializa nos acontecimentos recentes. Nos últimos meses, o Brasil transformou-se em vitrine de desastres anunciados: enchentes históricas no Sul, ciclones cada vez mais intensos, com ventos e ressacas típicos de furacão, rios amazônicos em colapso e incêndios recorrentes no Pantanal e no Cerrado. Em Mato Grosso, a combinação de seca extrema, fumaça tóxica sobre áreas urbanas e rios agonizantes escancarou o custo real da negação ambiental. Ainda assim, cada tragédia segue sendo tratada como “surpresa climática”, quando na verdade são capítulos previsíveis de um modelo que prefere negar a crise a enfrentar suas causas.
Esse negacionismo ambiental não se expressa apenas na recusa explícita da ciência. Ele opera de forma mais sutil e, justamente por isso, mais perigosa: no desmonte das estruturas de fiscalização, no enfraquecimento deliberado dos órgãos ambientais, na redução sistemática de orçamentos, na flexibilização de normas/leis e no discurso recorrente de que o meio ambiente “atrapalha” o desenvolvimento econômico. Negar, hoje, é governar como se os limites ambientais simplesmente não existissem.
Nesse processo de desmonte silencioso, os órgãos ambientais brasileiros deixaram de ser guardiões do interesse público para se converterem em verdadeiros cartórios verdes, especializados na emissão automática de papéis que conferem aparência de legalidade à degradação. A técnica foi substituída pela pressa, a fiscalização pelo carimbo e o planejamento pela conveniência política. Licenças tornaram-se mercadorias administrativas, estudos ambientais passaram a cumprir função meramente decorativa e a proteção dos territórios foi reduzida a um checklist burocrático. Enquanto a natureza arde, seca e morre, o Estado se ocupa em carimbar autorizações, não para evitar o dano, mas para torná-lo oficialmente aceitável.
Nesse cenário de negacionismo institucionalizado, os defensores do meio ambiente passaram a ocupar o papel de inimigos do poder. Ambientalistas, pesquisadores, lideranças indígenas e militantes socioambientais são frequentemente retratados como entraves ao crescimento econômico e estigmatizados por rótulos pejorativos como “biodesagradáveis” ou “ecochatos”. Essa desqualificação não é casual: trata-se de uma estratégia política para esvaziar o debate público, desacreditar a ciência e excluir essas vozes dos espaços de decisão. A marginalização simbólica, muitas vezes acompanhada de perseguições administrativas, ameaças e tentativas de silenciamento, cria um ambiente hostil à defesa do interesse coletivo, enquanto os verdadeiros responsáveis pela degradação seguem protegidos pelo discurso do progresso.
Em Mato Grosso, essa contradição ganha contornos ainda mais evidentes. O estado ocupa posição central no cenário ambiental brasileiro ao concentrar áreas significativas da Amazônia, do Cerrado e quase a totalidade do Pantanal. Ao mesmo tempo em que se projeta como potência do agronegócio e pilar da economia nacional, Mato Grosso consolidou-se também como um dos epicentros das pressões ambientais denunciadas pelo GEO Brasil 2025.
O Pantanal é o símbolo mais eloquente desse modelo em colapso. Maior planície alagável do mundo e patrimônio natural da humanidade, o bioma enfrenta aumento acelerado das temperaturas, secas extremas e incêndios cada vez mais frequentes e intensos. Ainda assim, persiste o discurso político que trata o fogo como fenômeno natural inevitável, ignorando a relação direta entre mudanças climáticas, desmatamento no entorno, uso inadequado do solo e a ausência crônica de políticas eficazes de prevenção e recuperação ambiental.
Essa narrativa revela a essência do negacionismo ambiental brasileiro: transformar tragédias anunciadas em fatalidades convenientes. Em Mato Grosso, a fumaça que encobre cidades durante meses, os rios em níveis historicamente baixos, a perda de biodiversidade e os impactos diretos sobre a saúde pública passaram a ser tratados como parte da rotina, quando são, na verdade, o resultado previsível de escolhas políticas e econômicas de quem gere o Estado.
O GEO Brasil 2025 desmonta ainda uma das falácias mais recorrentes no debate estadual e nacional: a falsa oposição entre conservação ambiental e produção. O relatório demonstra que é justamente a degradação ambiental que ameaça o futuro econômico do país. A instabilidade climática altera o regime de chuvas, compromete a disponibilidade hídrica, reduz a produtividade agrícola e intensifica conflitos pelo uso da água. O custo ambiental já está sendo pago e, como sempre, de forma desigual.
Em Mato Grosso, comunidades indígenas, ribeirinhas e populações tradicionais do Pantanal e do Cerrado são as primeiras a sentir os efeitos da crise: escassez de água, contaminação de rios, perda de território e insegurança alimentar. Ainda assim, permanecem à margem dos processos decisórios, enquanto o debate ambiental segue sendo reduzido a entrave burocrático ou rotulado como pauta ideológica.
O relatório expõe, por fim, uma contradição estrutural do Brasil: possuímos uma legislação ambiental reconhecida internacionalmente, mas falhamos sistematicamente na sua implementação e fiscalização. Em Mato Grosso, isso se traduz em fiscalização insuficiente, tolerância com práticas ilegais, perdão explícito de multas ambientais, flexibilização normativa e discursos que deslegitimam órgãos de controle e a própria ciência. O negacionismo, nesse contexto, não é ignorância, é estratégia e método.
A COP30 colocou o Brasil no centro do debate climático global, e documentos como o GEO Brasil 2025 não podem servir apenas como retórica institucional ou munição em disputas políticas polarizadas. Não há credibilidade internacional possível enquanto biomas brasileiros, como o Pantanal, seguem sendo tratados como áreas de sacrifício em nome de ganhos imediatos de poucas pessoas. O que acontece em Mato Grosso não é um problema local: afeta o regime de chuvas, a biodiversidade e a segurança ambiental de todo o país e, consequentemente, de toda a população, rica ou pobre.
O Brasil já não pode alegar desconhecimento. E Mato Grosso, pela centralidade que ocupa nesse debate, não pode continuar adiando decisões nem flexibilizando políticas ambientais em nome de um desenvolvimento econômico de curto prazo para um pequeno grupo seleto. Persistir no negacionismo ambiental é optar conscientemente pelo colapso em escala local, regional e nacional. O preço dessa escolha já começou a ser cobrado e será pago por todos, independentemente de classe social ou ideologia política.
O GEO Brasil 2025 não deixa espaço para desculpas. A crise está documentada, os dados são públicos e as consequências já batem à porta. Insistir no negacionismo ambiental não é erro de avaliação, é decisão política consciente, e decisões conscientes produzem responsáveis. Negar a crise hoje é empurrar o custo para os mais pobres, os mais vulneráveis e para as próximas gerações. O colapso não será seletivo, apenas desigual. O Brasil, e especialmente Mato Grosso, precisa decidir se continuará carimbando o desastre ou se terá coragem de enfrentar suas causas antes que o preço seja pago com vidas, territórios e futuro.
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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