Opinião
Organizações criminosas e o terrorismo têm mais em comum do que se admite
Opinião
A discussão sobre a escalada da criminalidade no Brasil ganhou um novo contorno nas últimas semanas. Cada vez mais, é possível traçar paralelos claros entre o avanço das facções criminosas e as táticas de grupos terroristas pelo mundo. À primeira vista, a comparação pode soar exagerada — mas basta observar como esses grupos operam e o impacto que exercem sobre o Estado e a sociedade para constatar que não há fronteira real entre um e outro. O crime organizado brasileiro já atua sob a mesma lógica.
O termo terrorismo se origina do latim terror, que significa grande medo, alarme ou pânico. Embora o tipo penal vigente no Brasil seja restritivo, em sua essência esse termo não se define apenas pela motivação ideológica, mas também pela capacidade de impor medo coletivo e desafiar o monopólio da força estatal. É exatamente o que as organizações criminosas têm feito em diversos territórios brasileiros.
Criam códigos de conduta, estabelecem fronteiras, limitam o acesso e exercem controle direto sobre serviços básicos, como energia, telefonia e transporte. Isso é domínio territorial. Isso é poder político paralelo.
O que se observa nas comunidades dominadas por facções é a substituição gradual da autoridade do Estado pela autoridade do crime. As barricadas erguidas nas vielas do Rio de Janeiro, as execuções públicas transmitidas em tempo real e o uso de armamento pesado contra forças policiais são exemplos claros de estratégias de intimidação e propaganda.
Essas organizações também compreenderam o valor da comunicação. A título de exemplo, o grupo terrorista mundialmente conhecido — ISIS, ou Estado Islâmico — impõe-se por meio de transmissões ao vivo e da divulgação em massa de vídeos exibindo a execução de reféns.
Da mesma maneira que o terrorismo clássico se utiliza de vídeos e redes de comunicação para disseminar medo, o crime organizado brasileiro vem explorando a narcocultura como forma de propaganda. A romantização da violência e a idolatria de criminosos estão cada vez mais presentes. Clipes de funk exaltando facções, filmes e séries que retratam líderes do tráfico como ícones de resistência — tudo isso contribui para naturalizar a violência e corroer a noção de autoridade pública.
O resultado é devastador: um Estado acuado, uma população refém e uma juventude seduzida por uma narrativa perversa. Enquanto o crime opera com drones, granadas e redes de informação a todo vapor, o poder público ainda insiste em enfrentar essa guerra com estruturas burocráticas e estratégias ultrapassadas.
Reconhecer que há um caráter terrorista nas ações das facções não é apenas uma questão de semântica, mas de estratégia nacional. Ressalto que a simples mudança de nomenclatura também não produziria grandes efeitos.
Se quisermos evitar que o Brasil entre definitivamente nesse ciclo de dominação e medo, tornando-se oficialmente um narcoestado, precisamos agir com clareza conceitual e coragem política. As facções não são mais apenas quadrilhas. São sistemas. São exércitos informais que se impõem cada vez mais sobre o Estado. E o primeiro passo para vencê-los é reconhecer a dimensão real da ameaça.
Frederico Murta é delegado de Polícia Civil em Mato Grosso e coordenador da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (CORE)
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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