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O poder político de um simples chinelo

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A recente polêmica envolvendo a Havaianas, marca historicamente associada ao cotidiano, ao verão e a uma ideia quase ingênua de brasilidade, diz muito menos sobre chinelos e muito mais sobre o estágio avançado da polarização política no Brasil. Em um país onde tudo virou trincheira ideológica, até um par de sandálias é arrastado para o campo de batalha.

O episódio escancara como o debate público brasileiro perdeu nuances. Qualquer gesto, campanha publicitária ou posicionamento corporativo é imediatamente enquadrado como “a favor” ou “contra” algum campo político. Não há espaço para ironia, ambiguidade ou sequer para o direito ao erro. Marcas são cobradas como partidos, consumidores agem como militantes e as redes sociais funcionam como tribunais sumários, onde o julgamento precede a compreensão dos fatos.

O problema não está apenas nas reações exaltadas de grupos à direita ou à esquerda, mas na lógica perversa que transforma tudo em identidade política. Comprar, usar ou criticar uma Havaianas deixa de ser uma escolha de consumo e passa a funcionar como suposto atestado ideológico. Essa dinâmica empobrece o debate, infantiliza a sociedade e desloca a política de onde ela deveria estar: nas discussões sérias sobre desigualdade, serviços públicos, economia e democracia.

No Brasil de hoje, não falta ideologia, mas falta médico. Não falta militância, mas falta professor. Não falta gente gritando na internet, mas falta saneamento básico, transporte decente e políticas públicas que funcionem fora do discurso. A polarização política virou o grande espetáculo nacional: enquanto a plateia se estapeia por cores, políticos de estimação, slogans e líderes messiânicos, o palco real onde a vida acontece desmorona em silêncio.

Hospitais superlotados, escolas sucateadas, ruas esburacadas, insegurança cotidiana, filas intermináveis e serviços públicos que funcionam quando querem, se querem. Ainda assim, nada disso mobiliza tanto quanto uma postagem, uma camiseta, um chinelo ou uma campanha publicitária interpretada como ameaça ideológica. O Brasil não parou por falta de recursos; parou porque escolheu discutir símbolos enquanto ignora estruturas.

A polarização se tornou a cortina perfeita. À esquerda, tudo é culpa do “fascismo”. À direita, tudo é culpa do “comunismo”. No meio, o cidadão comum tenta marcar consulta no SUS, matricular o filho na escola pública ou simplesmente voltar para casa sem ser assaltado. A guerra simbólica é intensa, barulhenta e absolutamente ineficaz para resolver qualquer problema concreto.

Enquanto isso, os serviços públicos seguem em estado crônico de abandono. A saúde vive de remendos emergenciais, a educação é tratada como gasto e não como investimento, e o transporte público mais parece um teste diário de resistência física e psicológica. O Estado falha, mas a militância permanece fiel, não a resultados, mas a narrativas e à políticos de estimação. Afinal, é mais confortável defender políticos do que cobrar políticas públicas.

A polarização também anestesia a indignação. Tudo passa a ser relativizado conforme o lado. Se o erro é “do meu campo”, vira perseguição; se é “do outro”, vira prova definitiva de corrupção moral. Nesse jogo, ninguém governa, ninguém fiscaliza e ninguém assume responsabilidades. O debate público se converte em torcida organizada, e o cidadão, em figurante.

O mais perverso é que, enquanto a população briga, a elite política convive muito bem. Jantam juntos, negociam juntos, se beneficiam juntos. A polarização é, em grande medida, um produto vendido às massas. Nos bastidores, o pragmatismo reina; na superfície, a guerra cultural mantém todos ocupados demais para perguntar por que nada melhora.

E assim seguimos: pobres defendendo projetos que os empobrecem, trabalhadores atacando políticas que poderiam beneficiá-los, cidadãos confundindo identidade política com cidadania. A política vira religião, o voto vira ato de fé cega. Questionar se transforma em traição; pensar, em suspeita.

Nesse cenário, falar em eficiência dos serviços públicos soa quase subversivo. Planejamento, metas, avaliação de resultados e transparência perdem espaço para lives, frases de efeito e escândalos fabricados. Governar dá trabalho; lacrar dá curtida. E curtida não tapa buraco, não reduz fila, não salva vidas.

Talvez o efeito mais nocivo da polarização seja justamente esse: ela mata a possibilidade de renovação. As mesmas figuras se revezam no poder, embaladas por discursos reciclados, enquanto novas lideranças são sufocadas antes mesmo de surgir. Quem tenta sair do script é rapidamente enquadrado, atacado ou ridicularizado.

Mas a crise também abre brechas. O cansaço é visível. Há uma sociedade saturada de promessas vazias, brigas estéreis e serviços públicos que não entregam sequer o mínimo. É desse esgotamento que podem, e precisam, emergir novas lideranças políticas: menos ideológicas e mais competentes. Menos performáticas e mais comprometidas. Menos preocupadas em vencer debates virtuais e mais focadas em resolver problemas reais.

O Brasil não precisa de salvadores da pátria, nem de influencers políticos. Precisa de gestores públicos sérios, projetos consistentes e coragem para romper com a lógica da polarização como método de poder. Precisa recolocar a política no lugar certo: como instrumento de transformação concreta da vida das pessoas, e não como espetáculo permanente de conflito.

Enquanto isso não acontece, seguimos tropeçando nos buracos das ruas e nas armadilhas do discurso. Com bandeiras nas mãos, celulares ligados e serviços públicos desligados. Porque, no Brasil polarizado, a gritaria é alta, mas a entrega é sempre baixa.

 

Williamon da Silva Costa
Acadêmico de direito.

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Agosto Lilás, romper o silêncio é um compromisso de todos!

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O mês de agosto nos convida a refletir sobre uma das maiores feridas da nossa sociedade: a violência contra a mulher. O Agosto Lilás não é apenas uma campanha de conscientização. É um chamado para que todos nós deixemos a indiferença de lado e assumamos o compromisso de proteger vidas.

Todos os dias, milhares de mulheres carregam marcas que nem sempre podem ser vistas. Algumas escondem hematomas. Outras convivem com cicatrizes emocionais provocadas por humilhações, ameaças e medo. Muitas permanecem em relacionamentos abusivos porque dependem financeiramente do agressor, não encontram apoio ou perderam a esperança de recomeçar.

Nenhuma mulher deveria viver assim.

É inadmissível que Mato Grosso, um dos Estados que mais cresce economicamente no Brasil, carregue também a triste marca de figurar, pelo terceiro ano consecutivo, entre os que mais registram feminicídios. Esse contraste nos envergonha e reforça que desenvolvimento só é verdadeiro quando preserva vidas e garante dignidade.

A Lei Maria da Penha, que completa 20 anos, transformou o enfrentamento da violência doméstica ao reconhecer que esse não é um problema privado, mas uma grave violação dos direitos humanos. Porém, leis, sozinhas, não mudam a realidade. Elas precisam ser cumpridas e acompanhadas por políticas públicas eficientes.

Foi com esse propósito que apresentamos iniciativas para fortalecer a proteção às mulheres em Mato Grosso. Entre elas, o Projeto de Lei nº 107/2025, que reserva vagas de emprego em contratos públicos para mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade social, oferecendo uma oportunidade concreta de reconstrução por meio da independência financeira.

Também são de nossa autoria a Lei nº 11.795/2022, que criou um guia permanente da rede de atendimento às vítimas, e a Lei nº 13.151/2025, que ampliou a mobilização dos homens pelo fim da violência contra a mulher e institucionalizou a campanha Laço Branco no calendário estadual. Afinal, homens de respeito respeitam as mulheres.

Como presidente da Assembleia Legislativa, também solicitei informações sobre a aplicação das mais de 60 leis estaduais já existentes de proteção às mulheres. O desafio não é apenas criar normas, mas fazer com que elas cheguem à vida de quem mais precisa.

Mas nenhuma lei será suficiente sem uma mudança de consciência. A violência nasce, muitas vezes, dentro de casa, alimentada pelo desrespeito, pelo machismo e pela intolerância. O lar deve ser um lugar de acolhimento, nunca de medo.

Neste Agosto Lilás, convido cada cidadão a fazer sua parte. Que acolhamos quem pede ajuda, denunciemos a violência e eduquemos nossas crianças para o respeito, a igualdade e a empatia.

Romper o silêncio é um ato de coragem. Estender a mão é um gesto de humanidade. Construir um Mato Grosso onde nenhuma mulher tenha medo de viver é uma missão de todos nós.

*Max Russi, deputado estadual e atual presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso

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