Opinião
Litígio, sinônimo de dinheiro
Opinião
Por Gaylussac Dantas Araújo*
É de conhecimento geral a metáfora do copo meio vazio, utilizada como exercício de framing pelos psicólogos, e que constitui um exemplo clássico de como o ângulo pelo qual enxergamos um fato pode influenciar nossas decisões.
Realmente, há quem veja em tudo seu aspecto negativo, o que poderia representar verdadeira virtude caso se estivesse falando aqui de uma especial e apurada acuidade, capaz de mitigar os perigos da vida.
Infelizmente, é justamente o oposto que geralmente acontece. Sensibilidade acurada só aparente, parvo entorpecimento presente.
E a prova disso é que, da acusação à metade vazia do copo, comumente não se sucede a contemplação da metade preenchida, fato sobre o qual se passa ao largo.
Estultice com disfarce de prudência.
Num mundo altamente competitivo como o que vivemos, os modelos padronizados de negócios, tendem a perder sua atratividade, tal como um elástico muito usado tende a perder sua resiliência.
Mas o estulto abraça o modelo arcaico como que tomando a opção mais segura, quando na verdade submete seu patrimônio a uma verdadeira roleta russa, em troca de pouco. E tudo isso sem alterar minimamente seus níveis de adrenalina.
Sabe-se que a ignorância é anestesiante.
A história não deixa mentir, as grandes quebras de mercado derrubaram impérios financeiros que, deliberadamente autoengessados, não se permitiam mirar lucros de dois dígitos anuais. Como que lucrar pouco fosse garantia de não quebrar!
Meia dúzia de pessoas no Brasil passaram a enxergar o “ativo estressado” como o melhor formato de investimento possível.
Quando o negócio mais seguro existente também representa o negócio mais lucrativo, o litígio judicial vira sinônimo de dinheiro.
Diz a parábola que não convém jogar pérolas aos porcos, porém, como esse problema também é algo quantificável, deixo a dica: jamais cogite dois dígitos.
Que o cético da bitcoin tenha aprendido a lição!
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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