Opinião
Inteligência Artificial e inclusão: uma revolução silenciosa
Opinião
Toda grande revolução tecnológica desperta entusiasmo, dúvidas e uma dose inevitável de desconfiança. Foi assim com a máquina de escrever, com os computadores e com a internet. Agora, é a vez da Inteligência Artificial ocupar o centro das atenções. Entre previsões sobre o desaparecimento de profissões e debates sobre os riscos da tecnologia, uma pergunta merece mais espaço: e se, antes de substituir pessoas, a IA estiver ajudando milhões delas a superar barreiras?
Quando utilizada de forma estratégica, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de automação para se tornar uma aliada da autonomia e da participação social.
Os exemplos já fazem parte da realidade. Aplicativos e dispositivos inteligentes ajudam pessoas com deficiência visual a se locomoverem com mais segurança ou permitem o acesso a tecnologias capazes de descrever ambientes, identificar objetos e fornecer orientações em tempo real representam avanços importantes para milhões de pessoas. Recursos como óculos inteligentes, sensores e aplicativos de navegação acessível mostram que a inovação pode estar a serviço da inclusão.
O mesmo ocorre com a comunicação. No Brasil, iniciativas que utilizam Inteligência Artificial para ampliar o acesso à Língua Brasileira de Sinais demonstram como a tecnologia pode aproximar pessoas e reduzir barreiras historicamente existentes.
Trata-se de uma revolução silenciosa. Enquanto grande parte do debate se concentra na substituição de empregos ou nos impactos econômicos da IA, milhões de pessoas conquistam mais autonomia, acessibilidade e participação social graças a recursos que, até poucos anos atrás, pareciam impossíveis.
Outro aspecto que desafia alguns estereótipos é a relação entre a Inteligência Artificial e as pessoas mais velhas. Um estudo do Instituto de Longevidade aponta que a experiência acumulada e o repertório adquirido ao longo dos anos podem se tornar diferenciais na interação com essas ferramentas. Afinal, a IA não substitui conhecimento. Ela potencializa o conhecimento existente.
Como qualquer tecnologia, seus impactos dependem da forma como é utilizada. A mesma ferramenta capaz de automatizar tarefas repetitivas também pode democratizar o acesso à informação, ampliar oportunidades e abrir caminhos para uma sociedade mais inclusiva.
No fim das contas, a Inteligência Artificial não elimina a importância das pessoas. Pelo contrário, evidencia aquilo que temos de mais humano. Mais do que substituir indivíduos, a tecnologia tem o potencial de eliminar barreiras. E talvez seja justamente aí que esteja a sua maior contribuição: promover, de forma silenciosa, uma revolução capaz de transformar inovação em inclusão.
João Metello é advogado e especialista em IA aplicada à produtividade pela Harvard Business School.
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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