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Dezembro Vermelho: quando o cuidado acolhe e transforma vidas

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*Por Mara Nasrala

Existem temas que ainda exigem o silêncio de muita gente. Não por falta de coragem, mas pelo medo do julgamento. O HIV e a AIDS fazem parte dessa realidade que, muitas vezes, se esconde atrás de preconceitos, estigmas e informações distorcidas. Essa é a essência do Dezembro Vermelho, lembrar que a prevenção começa com diálogo e que o acolhimento é o primeiro passo para transformar vidas.

Por trás de cada diagnóstico existe uma história, uma família, um cotidiano interrompido por incertezas. E, ao mesmo tempo, existe também a possibilidade de recomeço, porque viver com HIV hoje não significa viver com medo. A ciência avançou, o tratamento evoluiu e a vida pode seguir sendo plena, ativa e cheia de planos. Quando a carga viral se torna indetectável, ela deixa de ser transmissível. Esse é um dos maiores avanços da saúde pública, e precisa ser conhecido por todos.

Mas tão importante quanto a informação é a forma como a oferecemos. Na Help Vida, entendemos que cuidar vai além dos exames, consultas e protocolos. Cuidar é abraçar a pessoa antes da condição. É ouvir sem pressa. É orientar sem julgar. É estar presente quando a coragem ainda está sendo reconstruída.

O preconceito ainda é, para muitos, uma barreira maior que o próprio vírus. Ele afasta, machuca, isola. E é por isso que o Dezembro Vermelho nos mostra que a empatia tem força para reconstruir a autoestima e abrir caminhos de esperança. A prevenção também nasce desse ambiente de acolhimento. Quando a informação circula com leveza e responsabilidade, ela protege. Ela salva.

Testar-se regularmente, buscar orientação, conversar abertamente sobre prevenção, tudo isso precisa ser tratado com naturalidade. A saúde nunca deveria ser motivo de vergonha. E, quando o cuidado é conduzido com humanidade, o medo perde espaço para a confiança.

Neste mês, reafirmamos nosso compromisso com aqueles que caminham conosco todos os dias. Queremos que cada pessoa se sinta vista, respeitada e acompanhada. Queremos ser o lugar onde a informação é clara, o tratamento é seguro e o acolhimento é real. Quando olhamos para a saúde com empatia, construímos não apenas vidas mais longas, mas também vidas mais leves, mais dignas e profundamente humanas.

*Mara Nasrala é Diretora Executiva da Help Vida.

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O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

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Há um paradoxo instalado nas escolas brasileiras. Exigimos do docente formação cada vez mais sofisticada e, simultaneamente, reduzimos sua margem de decisão. O resultado é um profissional altamente demandado, pouco autorizado e valorizado.

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.

Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.

A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.

Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.

É tentador ler isso como permissividade. É o contrário. Aquele sistema é mais exigente que o nosso, apenas desloca o rigor para a porta de entrada, em vez de distribuí-lo em controles posteriores.

Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.

Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.

Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.

O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.

A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.

Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.

Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.

Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.

*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

 

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