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Bondade ou controle? O limite invisível entre a virtude e o autossacrifício!

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Opinião

Por Kamila Garcia

A bondade costuma ser vista como uma virtude incontestável. Associamos a ideia de ser bom à empatia, à gentileza e ao cuidado com o outro, valores essenciais que sustentam a convivência humana. No cotidiano, porém, essa disposição para o cuidado revela nuances menos idealizadas. Há quem se entregue sem condições e quem ofereça ajuda apenas a quem considera “merecedor”. Ambas as posturas são socialmente aceitas, mas levantam uma questão ética inevitável: o que nossas escolhas revelam sobre nossas carências?

Os gestos de cuidado funcionam como um espelho. Eles expõem valores, limites emocionais e, muitas vezes, conflitos internos. O alerta surge quando quem se doa passa a se sentir invisível, ressentido ou emocionalmente exausto. Nesse ponto, a pergunta se impõe: até onde vai a virtude quando ela exige o apagamento de si mesmo? Cuidar do outro jamais deveria significar abrir mão da própria dignidade. Quando a entrega se transforma em autossacrifício contínuo, deixa de ser virtude e passa a ser fardo.

No campo religioso, especialmente no Cristianismo, a bondade é apresentada como um valor absoluto, vinculada ao amor ágape, aquele que não espera retorno. São Francisco de Assis sintetizou essa entrega ao afirmar: “É dando que se recebe”. Nessa lógica, ser bom é um fim em si mesmo. Ainda assim, cabe o questionamento: a natureza humana consegue sustentar tamanha renúncia sem adoecer emocionalmente quando não há cuidado consigo?

A psicologia e a psicanálise oferecem uma leitura mais cautelosa desse fenômeno. Sigmund Freud apontou que, em muitos casos, o altruísmo excessivo pode funcionar como uma defesa inconsciente para aliviar o sentimento de culpa. Jacques Lacan foi além ao alertar que o excesso de bondade pode esconder o desejo narcísico de se tornar indispensável. Nessa dinâmica, ser “bom demais” deixa de ser expressão de amor e passa a operar como uma forma sutil de poder: ao ocupar o lugar de quem é essencial, retira-se do outro a possibilidade de autonomia, criando uma dívida emocional impossível de ser quitada.

Diante disso, a pergunta central deixa de ser “quanto” somos bons e passa a ser “por que” escolhemos ser assim. A entrega nasce do cuidado genuíno ou da necessidade de controlar a forma como somos percebidos? Essa reflexão é desconfortável, mas necessária. Quando o gesto solidário carrega expectativas silenciosas de gratidão ou reconhecimento, ele deixa de ser virtude e se transforma em dominação. O afeto maduro reconhece o outro como um ser livre: não aprisiona, não cobra e não exige que o amor retorne na mesma medida.

O limite saudável da bondade reside na intenção que a acompanha e na preservação do próprio bem-estar. Quando ajudar não implica anular-se e quando não há ilusão de posse sobre o outro, a entrega se converte em maturidade emocional. Nesse sentido, a bondade só se torna plena quando caminha lado a lado com a autocompaixão — afinal, é preciso estar inteiro para poder se oferecer de verdade.

No fim, o verdadeiro crescimento humano acontece quando aprendemos a cuidar sem dominar e a dar sem perder a própria voz. A bondade deixa de ser uma performance social ou um sacrifício silencioso e se torna uma escolha consciente, equilibrada e, acima de tudo, livre.

E você? Consegue perceber se a sua entrega nasce da abundância do cuidado ou da necessidade de validação do outro?

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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Resiliência no ativismo cívico

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Há alguns anos, eu estava na rua. Participei ativamente do Movimento Muda Brasil e fui líder do “Vem Pra Rua” em Mato Grosso. Cobrávamos ética e fim da corrupção. Era voluntário. Há 2 anos e 5 meses sou presidente da CDL Cuiabá. Também voluntário. Sem salário. Sem gabinete luxuoso.

 

Essa trajetória me ensinou: cobrar é fácil. Resolver é chato. E o chato funciona.

 

Hoje, o ativismo virou clique. Todo mundo posta stories reclamando dos buracos, da sujeira nas ruas e praças e da seletividade da justiça. E aí? Nada muda. A performance da indignação substituiu a eficiência da articulação.

 

No ativismo 1.0, a gente lotava a rua, a imprensa mostrava, e houve um impeachment, mas o problema da corrupção, da ineficiência estatal, convenhamos, não acabou. Algo aconteceu, sim. Só que não foi a transformação duradoura que a gente imaginava. No ativismo 2.0, você senta com as autoridades constituídas, mostra e descreve o problema, assina compromissos e volta no mês que vem para cobrar de novo. Sem like. Sem holofote.

 

Resolver problemas e encontrar soluções dá menos like do que reclamar. Mas o like não asfalta rua, não tampa buraco, não traz limpeza, mobilidade, educação financeira. A pressão constante e educada cria pelo menos a expectativa de resolução. E quando a autoridade não resolve? Aí a rua volta, mas com dados, ofício e, se necessário, barulho cirúrgico.

 

Muita gente desiste do associativismo porque acha que “voluntário” significa “não posso cobrar muito”. Engano. Voluntário não é frouxo. É movido a propósito. E propósito cobra mais do que salário.

 

Três regras que aprendi:

 

1. Cobrança sem solução é fofoca. Leve uma ideia. Busque parceria, solução, não inimizade. Algumas respostas independem do setor público.

 

2. A rede social é o gancho, não o martelo. Poste com dados, sem xingamento. E, depois, levante e ligue para quem resolve.

 

3. Voluntário não precisa ser herói, precisa ser insistente. Não desista na primeira negativa. Volte. Recomece.

 

Muitos empresários dizem: “Política é suja, não adianta.” Mas se você não participar, sentar à mesa, vão decidir sua vida sem você. Reclamar é direito. Propor é dever.

 

Troquei a adrenalina do protesto pela paciência da construção. Não é glamoroso. Ninguém aplaude reunião de três horas. Mas quando há melhoras, aquilo não veio de um stories. Veio de um voluntário chato que insistiu.

 

Meu convite: seja voluntário de alguma coisa. CDL, associação de bairro, CVV, conselho escolar. Cobrar sem ser chato, resolver sem holofote, insistir sem desistir.

 

“A rua te ensina a gritar. A mesa te ensina a esperar. E o resultado te ensina que os dois são necessários, mas só um deles constrói.”

*Júnior Macagnam é empresário do setor da moda há mais de 20 anos e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá).

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