Opinião
A corrupção como álibi moral
Opinião
Murilo Gonçalves
Talvez seja hora de dizer uma coisa incômoda sobre boa parte da direita brasileira: o problema nunca foi, ou ao menos não é mais, apenas a corrupção. Se fosse, a indignação seria a mesma, independentemente de quem estivesse envolvido. Afinal, a corrupção deveria provocar a mesma revolta, viesse ela da esquerda ou da direita. Mas não é isso que tenho observado nos últimos anos.
Há algum tempo, escândalos envolvendo políticos do Partido dos Trabalhadores ajudaram a transformar corrupção quase em sinônimo de esquerda. Não eram apenas alguns políticos acusados ou condenados por corrupção, mas “o PT corrupto”, “a esquerda corrupta”, “o comunista corrupto”. Quando os escândalos atingem o outro lado, porém, essa generalização desaparece.
Recentemente, o país assistiu ao orçamento secreto movimentar dezenas de bilhões de reais durante um governo de direita, beneficiando principalmente sua base de sustentação no Congresso; viu esquemas de “rachadinhas” envolvendo gabinetes de políticos identificados com a direita; e tem acompanhado escândalos bilionários, como as fraudes no INSS e o caso do Banco Master, que revelam relações entre dinheiro, poder e personagens de diferentes campos políticos, inclusive da direita brasileira.
Se escândalos dessa dimensão tivessem como protagonistas apenas políticos de esquerda, é difícil imaginar que a reação seria a mesma. E é justamente essa diferença que interessa aqui e talvez nos ajude a entender algo mais profundo. Para uma boa parcela dos chamados “homens de bem”, a corrupção funciona como justificativa para uma rejeição muito maior ao que a esquerda brasileira também passou a representar.
E o que, afinal, essa esquerda passou a representar? O nordestino pobre e sem diploma universitário chegando à Presidência da República. Negros entrando nas universidades e ocupando posições de destaque. Mulheres comandando empresas, tribunais e governos. Homossexuais formando famílias e exigindo que suas relações sejam tratadas com a mesma dignidade das relações heterossexuais. Religiões de matriz africana exigindo o mesmo respeito dedicado às religiões cristãs.
Talvez seja exatamente nesse ponto que a rejeição a esses grupos se encontre com a rejeição à esquerda, ao PT e a tudo aquilo que genericamente chamam de comunismo, pois raramente o preconceito se apresenta dizendo seu próprio nome.
Ninguém diz “sou racista”, mas “não tenho nada contra negros, só que sou contra cotas”. Não diz “sou homofóbico”, mas “cada um faz o que quiser, só não precisa mostrar”. Não diz que considera a mulher inferior. Mas a mulher firme é “histérica”, enquanto o homem com o mesmo comportamento é “um líder”. Não diz que despreza nordestinos, mas transforma origem e sotaque em motivo de chacota. Não diz que despreza os pobres, mas usa a falta de um diploma para inferiorizá-los.
Sempre existe um “mas”. Talvez seja justamente depois desse “mas” que comece a conversa que a sociedade brasileira evita ter consigo mesma. É claro que o problema não é ser branco, heterossexual, cristão e/ou conservador. Evidentemente, não há nada de errado nisso. Eu mesmo reúno essas características. O problema começa quando alguém transforma a própria maneira de existir no padrão pelo qual todas as outras pessoas devem ser julgadas. É exatamente aí que o diferente passa a incomodar.
Assim, o negro pode existir, desde que não reivindique espaço na medicina e nos tribunais. O gay pode existir, desde que esconda sua família. A mulher pode trabalhar, desde que não mande. O pobre merece respeito, desde que permaneça no lugar reservado a ele. Outras religiões podem até existir, desde que não exijam o mesmo reconhecimento e respeito dedicados à religião cristã.
Por isso, possivelmente, a grande transformação social das últimas décadas tenha produzido tanto ressentimento entre os ditos cidadãos de bem conservadores. Pessoas que historicamente estavam à margem começaram a ocupar o centro e a conquistar espaços de poder, prestígio e reconhecimento. Mas e a corrupção, o que tem a ver com tudo isso? Ela oferece um álibi perfeito para rejeitar politicamente essas transformações sem precisar dizer em voz alta o verdadeiro motivo: uma justificativa moralmente aceitável para uma rejeição cuja origem pode estar em outro lugar.
Isso também pode explicar a indignação de tantas pessoas diante de quem ainda escolhe votar na esquerda ou no PT. O argumento costuma ser a corrupção, como se esse voto significasse compactuar com algo que não existisse do outro lado. No entanto, muitos desses mesmos eleitores conhecem os escândalos e os casos de corrupção envolvendo políticos nos quais votam.
É nessa contradição que a justificativa da corrupção perde força. Para uma boa parcela dessas pessoas, provavelmente não é a corrupção que torna o voto na esquerda tão inaceitável, mas aquilo que esse voto passou a representar: uma sociedade mais plural, com negros ocupando espaços de poder, mulheres comandando, nordestinos governando, homossexuais formando famílias e diferentes religiões convivendo com igual dignidade.
Nada disso absolve a esquerda e o PT de seus próprios erros. A corrupção deve ser investigada e punida, seja praticada por quem for. Mas quem realmente combate a corrupção por princípio não deveria escolher a intensidade da indignação conforme a cor da camisa, se vermelha ou verde e amarela.
É justamente aí que a corrupção deixa de explicar tudo. No fim, para uma boa parcela da direita, sobretudo para sua parte mais extrema, a corrupção talvez seja apenas o inimigo que pode ser confessado publicamente. Os outros têm nomes muito mais difíceis de admitir diante do espelho: racismo, xenofobia, misoginia, homofobia e intolerância religiosa.
Murilo Gonçalves, servidor público e advogado com atuação em direito público
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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