Opinião
A confiança também é uma obra pública
Opinião
Por Rodrigo de Arruda e Sá*
Toda decisão tomada por um administrador público deveria ser precedida de uma pergunta muito simples: isso facilita ou dificulta a vida do cidadão? Essa talvez seja a forma mais objetiva de avaliar a qualidade de uma política pública.
Quando o Estado simplifica procedimentos, reduz burocracias e oferece previsibilidade, fortalece a confiança da população; quando cria obstáculos desnecessários, produz exatamente o efeito contrário.
Costuma-se pensar que uma cidade é construída apenas com concreto, asfalto e edifícios. Esses elementos são importantes, mas não suficientes. As cidades mais prósperas são aquelas onde existe confiança: confiança para investir, para empreender, para comprar um imóvel, para abrir uma empresa e para planejar o futuro sem receio de mudanças inesperadas nas regras do jogo.
Essa confiança nasce da previsibilidade. O comerciante investe quando acredita que conseguirá trabalhar sem interrupções permanentes. O empresário amplia seus negócios quando percebe estabilidade nas decisões do poder público, e a família compra um terreno quando tem segurança de que as regras não mudarão no meio do caminho.
Em qualquer economia saudável, confiança é um ativo tão importante quanto infraestrutura.
Recentemente, Cuiabá já demonstrou que é possível avançar nessa direção. A implantação do Balcão Único prometeu reduzir o tempo para abertura de empresas, que antes podia chegar a 24 dias, para cerca de 15 minutos, um exemplo de como a desburocratização aproxima o poder público da realidade de quem produz e empreende. Esse é o caminho que toda administração pública deveria seguir.
O problema surge quando essa lógica não orienta todas as decisões da administração. Em alguns momentos, o cidadão percebe um movimento contrário, marcado por novas restrições e insegurança jurídica.
Obras executadas em horários de grande movimento, sem planejamento para reduzir os impactos sobre o trânsito e o comércio, alterações repentinas nas regras urbanísticas, como a suspensão da aprovação de loteamentos com terrenos inferiores a 200 metros quadrados, e decisões que aumentam a incerteza de quem pretende investir produzem exatamente o efeito oposto ao esperado.
Em todos esses casos, a pergunta deveria ser sempre a mesma: essa medida facilita ou dificulta a vida das pessoas?
Como contador e empresário, aprendi que a confiança também possui valor econômico. Ela não aparece nos balanços financeiros, mas influencia cada decisão de investimento, cada contratação de funcionário e cada novo empreendimento.
Quando o ambiente institucional transmite estabilidade e respeito ao cidadão, o capital circula com mais facilidade, os negócios prosperam e toda a cidade cresce.
Facilitar a vida das pessoas não significa abrir mão do planejamento nem da fiscalização. Significa compreender que o Estado existe para servir ao cidadão, e não para testar sua paciência.
Uma boa administração organiza, orienta e fiscaliza, mas evita criar barreiras que poderiam ser substituídas por soluções mais inteligentes e eficientes.
Cuiabá precisa continuar modernizando sua gestão. Isso significa ampliar a desburocratização, planejar melhor as obras, oferecer regras claras e estáveis e colocar o cidadão no centro de cada decisão administrativa.
Antes de editar um decreto, interditar uma avenida ou criar uma nova exigência, a Prefeitura deveria fazer uma pergunta muito simples: essa medida facilita ou dificulta a vida das pessoas? Se a resposta for “dificulta”, provavelmente ainda não é a melhor decisão.
No fim das contas, a confiança também é uma obra pública. Ela não se inaugura com placas nem se mede em quilômetros de asfalto, mas produz efeitos muito mais duradouros. Uma cidade onde o cidadão confia em suas instituições é uma cidade onde as pessoas permanecem, investem, trabalham e constroem o futuro. Talvez esse seja o maior legado que qualquer administração possa deixar.
*RODRIGO DE ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá
Opinião
Agosto Lilás, romper o silêncio é um compromisso de todos!
Todos os dias, milhares de mulheres carregam marcas que nem sempre podem ser vistas. Algumas escondem hematomas. Outras convivem com cicatrizes emocionais provocadas por humilhações, ameaças e medo. Muitas permanecem em relacionamentos abusivos porque dependem financeiramente do agressor, não encontram apoio ou perderam a esperança de recomeçar.
Nenhuma mulher deveria viver assim.
É inadmissível que Mato Grosso, um dos Estados que mais cresce economicamente no Brasil, carregue também a triste marca de figurar, pelo terceiro ano consecutivo, entre os que mais registram feminicídios. Esse contraste nos envergonha e reforça que desenvolvimento só é verdadeiro quando preserva vidas e garante dignidade.
A Lei Maria da Penha, que completa 20 anos, transformou o enfrentamento da violência doméstica ao reconhecer que esse não é um problema privado, mas uma grave violação dos direitos humanos. Porém, leis, sozinhas, não mudam a realidade. Elas precisam ser cumpridas e acompanhadas por políticas públicas eficientes.
Foi com esse propósito que apresentamos iniciativas para fortalecer a proteção às mulheres em Mato Grosso. Entre elas, o Projeto de Lei nº 107/2025, que reserva vagas de emprego em contratos públicos para mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade social, oferecendo uma oportunidade concreta de reconstrução por meio da independência financeira.
Também são de nossa autoria a Lei nº 11.795/2022, que criou um guia permanente da rede de atendimento às vítimas, e a Lei nº 13.151/2025, que ampliou a mobilização dos homens pelo fim da violência contra a mulher e institucionalizou a campanha Laço Branco no calendário estadual. Afinal, homens de respeito respeitam as mulheres.
Como presidente da Assembleia Legislativa, também solicitei informações sobre a aplicação das mais de 60 leis estaduais já existentes de proteção às mulheres. O desafio não é apenas criar normas, mas fazer com que elas cheguem à vida de quem mais precisa.
Mas nenhuma lei será suficiente sem uma mudança de consciência. A violência nasce, muitas vezes, dentro de casa, alimentada pelo desrespeito, pelo machismo e pela intolerância. O lar deve ser um lugar de acolhimento, nunca de medo.
Neste Agosto Lilás, convido cada cidadão a fazer sua parte. Que acolhamos quem pede ajuda, denunciemos a violência e eduquemos nossas crianças para o respeito, a igualdade e a empatia.
Romper o silêncio é um ato de coragem. Estender a mão é um gesto de humanidade. Construir um Mato Grosso onde nenhuma mulher tenha medo de viver é uma missão de todos nós.
*Max Russi, deputado estadual e atual presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso
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