Opinião
Não escolha um deputado; escolha um representante
Opinião
Por Rodrigo Arruda e Sá*
A campanha eleitoral está começando e, como acontece a cada quatro anos, veremos uma enxurrada de vídeos, jingles, promessas, debates e frases de efeito. Haverá
candidatos para todos os gostos: os mais engraçados, os mais barulhentos, os mais polêmicos e os mais presentes nas redes sociais. O risco é que, no meio desse espetáculo, o eleitor esqueça uma pergunta essencial: estou escolhendo um deputado ou apenas alguém de quem gosto?
Essa talvez seja uma das maiores fragilidades da democracia brasileira. Confundimos representação com identificação. Votamos em quem fala como nós, se veste como nós, torce pelo mesmo time ou reforça nossas convicções. Mas representar uma sociedade exige muito mais do que agradar um determinado grupo. Exige preparo, equilíbrio, capacidade de diálogo e compromisso com o interesse público, mesmo quando isso significa tomar decisões impopulares.
Imagine um empresário escolhendo o diretor financeiro de sua empresa apenas porque ele faz discursos empolgantes. Ou uma família contratando um médico pelo número de seguidores que possui na internet. Parece absurdo, porque sabemos que funções importantes exigem competência, experiência e responsabilidade. Na política, porém, frequentemente fazemos exatamente o contrário: entregamos um mandato a pessoas que conhecemos apenas por vídeos de poucos segundos ou por frases que confirmam aquilo que já pensamos.
Uma pesquisa Datafolha divulgada recentemente revelou um dado preocupante: 67% dos brasileiros não se lembram em quem votaram para deputado federal na última eleição, e 68% não conseguem citar o nome de um deputado federal atualmente em exercício. Isso mostra que muitos eleitores tratam o voto para o Legislativo como um detalhe da eleição, quando, na verdade, é justamente no Parlamento que são discutidas e aprovadas as leis que moldam a vida do país.
Ao longo dos últimos meses, escrevi nesta coluna sobre planejamento, mobilidade, qualidade dos espaços públicos, excesso de burocracia e respeito ao cidadão. Nenhum desses temas depende apenas do governador ou do presidente. Todos passam, inevitavelmente, pelo trabalho de deputados que elaboram leis, fiscalizam o Executivo, aprovam orçamentos e definem prioridades. Um parlamentar despreparado custa caro à sociedade, mesmo que nunca apareça em um escândalo.
Talvez o eleitor esteja fazendo a pergunta errada. Em vez de questionar se o candidato pensa exatamente como ele, deveria perguntar se aquela pessoa possui equilíbrio para representar uma sociedade formada por milhões de brasileiros diferentes entre si. Representar não é ecoar paixões momentâneas nem alimentar divisões. Representar é estudar os problemas, ouvir posições divergentes, construir soluções e decidir com responsabilidade.
Vivemos uma época em que a política corre o risco de se transformar em entretenimento. Há candidatos que parecem disputar audiência, e não a confiança do eleitor. Mas mandatos não são prêmios de popularidade. São responsabilidades públicas. A urna não foi criada para eleger influenciadores, mas representantes.
Quando escolhemos um deputado, entregamos a ele uma procuração para falar e votar em nosso nome durante quatro anos. Uma procuração dessa importância não pode ser concedida por impulso, simpatia ou algoritmo. Ela deve ser resultado de reflexão, porque as campanhas terminam em outubro, mas as consequências do voto permanecem durante todo o mandato.
Nesta eleição, portanto, faça um favor a si mesmo e à democracia. Não escolha apenas um deputado. Escolha alguém que tenha capacidade de representar você, inclusive nos momentos em que a decisão mais correta não for a mais popular. É assim que se fortalecem as instituições, amadurece a política e se constrói um país melhor.
*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.*
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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