Opinião
Uma cidade para poucos
Opinião
É evidente que nenhuma cidade pode crescer de forma desordenada. Planejamento urbano, infraestrutura, drenagem e preservação ambiental são responsabilidades inegociáveis do poder público. O que se discute, entretanto, é se esse planejamento pode ignorar a realidade econômica de milhares de famílias que enxergam em um terreno menor a única oportunidade de construir sua casa própria.
Há, porém, uma questão ainda mais relevante. O decreto revela uma determinada concepção sobre a relação entre Estado e cidadão. Parte da premissa de que o poder público sabe melhor do que cada família qual deve ser o tamanho do terreno em que ela pode morar. Em vez de ampliar possibilidades, restringe escolhas; em vez de confiar na capacidade de decisão das pessoas, transfere essa decisão para a administração pública.
Essa postura causa ainda mais estranheza quando parte de um governo que se apresenta como defensor da liberdade econômica e da menor intervenção estatal. Um dos pilares do pensamento de direita sempre foi a defesa da propriedade privada e da autonomia do indivíduo para tomar decisões sobre sua própria vida. Quando o Estado começa a dizer qual é o tamanho mínimo de terreno que considera aceitável para um cidadão adquirir, aproxima-se de uma lógica paternalista que contradiz exatamente esses princípios.
Como contador e empresário, aprendi que toda decisão pública produz consequências econômicas. Um lote maior significa um investimento maior, um financiamento mais caro e uma barreira adicional para famílias que já enfrentam enormes dificuldades para conquistar seu primeiro imóvel. Em uma cidade com déficit habitacional e renda média distante dessa realidade, elevar o custo de entrada no mercado imobiliário não parece ser a resposta mais sensata.
O papel do poder público deve ser organizar o crescimento da cidade, não decidir quais sonhos o cidadão pode ou não realizar. Cabe ao Município estabelecer regras urbanísticas responsáveis, fiscalizar sua aplicação e garantir infraestrutura adequada. Não lhe cabe substituir a vontade das famílias por uma visão burocrática do que seria o modelo ideal de cidade.
Cuiabá precisa de planejamento, sem dúvida. Mas precisa também de humildade para reconhecer que uma cidade verdadeiramente inclusiva é aquela que amplia oportunidades, e não aquela que restringe escolhas. O direito à moradia começa pela liberdade de cada família construir seu futuro dentro de suas possibilidades, e não dentro dos limites que o Estado julga convenientes.
*RODRIGO DE ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
Opinião
Agosto Lilás, romper o silêncio é um compromisso de todos!
Todos os dias, milhares de mulheres carregam marcas que nem sempre podem ser vistas. Algumas escondem hematomas. Outras convivem com cicatrizes emocionais provocadas por humilhações, ameaças e medo. Muitas permanecem em relacionamentos abusivos porque dependem financeiramente do agressor, não encontram apoio ou perderam a esperança de recomeçar.
Nenhuma mulher deveria viver assim.
É inadmissível que Mato Grosso, um dos Estados que mais cresce economicamente no Brasil, carregue também a triste marca de figurar, pelo terceiro ano consecutivo, entre os que mais registram feminicídios. Esse contraste nos envergonha e reforça que desenvolvimento só é verdadeiro quando preserva vidas e garante dignidade.
A Lei Maria da Penha, que completa 20 anos, transformou o enfrentamento da violência doméstica ao reconhecer que esse não é um problema privado, mas uma grave violação dos direitos humanos. Porém, leis, sozinhas, não mudam a realidade. Elas precisam ser cumpridas e acompanhadas por políticas públicas eficientes.
Foi com esse propósito que apresentamos iniciativas para fortalecer a proteção às mulheres em Mato Grosso. Entre elas, o Projeto de Lei nº 107/2025, que reserva vagas de emprego em contratos públicos para mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade social, oferecendo uma oportunidade concreta de reconstrução por meio da independência financeira.
Também são de nossa autoria a Lei nº 11.795/2022, que criou um guia permanente da rede de atendimento às vítimas, e a Lei nº 13.151/2025, que ampliou a mobilização dos homens pelo fim da violência contra a mulher e institucionalizou a campanha Laço Branco no calendário estadual. Afinal, homens de respeito respeitam as mulheres.
Como presidente da Assembleia Legislativa, também solicitei informações sobre a aplicação das mais de 60 leis estaduais já existentes de proteção às mulheres. O desafio não é apenas criar normas, mas fazer com que elas cheguem à vida de quem mais precisa.
Mas nenhuma lei será suficiente sem uma mudança de consciência. A violência nasce, muitas vezes, dentro de casa, alimentada pelo desrespeito, pelo machismo e pela intolerância. O lar deve ser um lugar de acolhimento, nunca de medo.
Neste Agosto Lilás, convido cada cidadão a fazer sua parte. Que acolhamos quem pede ajuda, denunciemos a violência e eduquemos nossas crianças para o respeito, a igualdade e a empatia.
Romper o silêncio é um ato de coragem. Estender a mão é um gesto de humanidade. Construir um Mato Grosso onde nenhuma mulher tenha medo de viver é uma missão de todos nós.
*Max Russi, deputado estadual e atual presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso
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