Opinião
GEOPOLÍTICA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Opinião
*Por: Keydson Barcelos,
Em plena Copa do Mundo, com o planeta inteiro de olho no campo, o governo dos Estados Unidos tomou uma das decisões mais impactantes da história recente da tecnologia: proibiu que cidadãos estrangeiros acessem as inteligências artificiais mais poderosas já lançadas pela Anthropic, empresa americana criadora do Claude. A ordem chegou numa sexta-feira à tarde, por carta, sem explicação detalhada e sem aviso prévio decente. O resultado foi imediato: os modelos foram desligados para o mundo inteiro.
Os modelos em questão se chamam Fable 5 e Mythos 5. O Fable 5 seria o assistente de trabalho mais capaz já disponibilizado ao público em geral — superior a tudo que existia antes em raciocínio, escrita, pesquisa e execução de tarefas complexas. O Mythos 5 é o mesmo modelo, mas sem restrições: capaz de identificar vulnerabilidades em sistemas críticos com uma eficiência que, segundo o próprio governo americano, representa risco à segurança nacional.
O motivo oficial foi a descoberta de uma técnica de “jailbreak” — uma forma de contornar os mecanismos de segurança do Fable 5 e liberar capacidades que deveriam permanecer bloqueadas. Washington entrou em pânico e agiu rápido. A Anthropic cumpriu a ordem, mas discordou publicamente dela, argumentando que a mesma lógica poderia paralisar todos os lançamentos futuros de IAs de ponta no setor.
O que poucos sabem é que a história tem camadas. Nos meses anteriores, a empresa já vivia uma briga com o Pentágono, que exigia usar o Claude para fins militares sem restrição alguma. A Anthropic recusou. A partir daí, figuras do governo Trump passaram a atacar publicamente a empresa, chamando-a de “woke” e “esquerdista”. Um juiz federal chegou a bloquear uma proibição anterior, classificando-a como retaliação política inconstitucional.
Mas isso é maior do que uma briga corporativa. Estamos vendo os Estados Unidos usarem o controle sobre a inteligência artificial como instrumento de poder — do mesmo jeito que fizeram antes com semicondutores, satélites e software. Não é novidade na história americana. O que é novo é a velocidade. E o fato de que dessa vez, o que está sendo controlado pensa.
Keydson Barcelos, especialista em IA nos Negócios pela PUC-PR (cursando)
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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