Opinião
Bondade ou controle? O limite invisível entre a virtude e o autossacrifício!
Opinião
A bondade costuma ser vista como uma virtude incontestável. Associamos a ideia de ser bom à empatia, à gentileza e ao cuidado com o outro, valores essenciais que sustentam a convivência humana. No cotidiano, porém, essa disposição para o cuidado revela nuances menos idealizadas. Há quem se entregue sem condições e quem ofereça ajuda apenas a quem considera “merecedor”. Ambas as posturas são socialmente aceitas, mas levantam uma questão ética inevitável: o que nossas escolhas revelam sobre nossas carências?
Os gestos de cuidado funcionam como um espelho. Eles expõem valores, limites emocionais e, muitas vezes, conflitos internos. O alerta surge quando quem se doa passa a se sentir invisível, ressentido ou emocionalmente exausto. Nesse ponto, a pergunta se impõe: até onde vai a virtude quando ela exige o apagamento de si mesmo? Cuidar do outro jamais deveria significar abrir mão da própria dignidade. Quando a entrega se transforma em autossacrifício contínuo, deixa de ser virtude e passa a ser fardo.
No campo religioso, especialmente no Cristianismo, a bondade é apresentada como um valor absoluto, vinculada ao amor ágape, aquele que não espera retorno. São Francisco de Assis sintetizou essa entrega ao afirmar: “É dando que se recebe”. Nessa lógica, ser bom é um fim em si mesmo. Ainda assim, cabe o questionamento: a natureza humana consegue sustentar tamanha renúncia sem adoecer emocionalmente quando não há cuidado consigo?
A psicologia e a psicanálise oferecem uma leitura mais cautelosa desse fenômeno. Sigmund Freud apontou que, em muitos casos, o altruísmo excessivo pode funcionar como uma defesa inconsciente para aliviar o sentimento de culpa. Jacques Lacan foi além ao alertar que o excesso de bondade pode esconder o desejo narcísico de se tornar indispensável. Nessa dinâmica, ser “bom demais” deixa de ser expressão de amor e passa a operar como uma forma sutil de poder: ao ocupar o lugar de quem é essencial, retira-se do outro a possibilidade de autonomia, criando uma dívida emocional impossível de ser quitada.
Diante disso, a pergunta central deixa de ser “quanto” somos bons e passa a ser “por que” escolhemos ser assim. A entrega nasce do cuidado genuíno ou da necessidade de controlar a forma como somos percebidos? Essa reflexão é desconfortável, mas necessária. Quando o gesto solidário carrega expectativas silenciosas de gratidão ou reconhecimento, ele deixa de ser virtude e se transforma em dominação. O afeto maduro reconhece o outro como um ser livre: não aprisiona, não cobra e não exige que o amor retorne na mesma medida.
O limite saudável da bondade reside na intenção que a acompanha e na preservação do próprio bem-estar. Quando ajudar não implica anular-se e quando não há ilusão de posse sobre o outro, a entrega se converte em maturidade emocional. Nesse sentido, a bondade só se torna plena quando caminha lado a lado com a autocompaixão — afinal, é preciso estar inteiro para poder se oferecer de verdade.
No fim, o verdadeiro crescimento humano acontece quando aprendemos a cuidar sem dominar e a dar sem perder a própria voz. A bondade deixa de ser uma performance social ou um sacrifício silencioso e se torna uma escolha consciente, equilibrada e, acima de tudo, livre.
E você? Consegue perceber se a sua entrega nasce da abundância do cuidado ou da necessidade de validação do outro?
Opinião
Agosto Lilás, romper o silêncio é um compromisso de todos!
Todos os dias, milhares de mulheres carregam marcas que nem sempre podem ser vistas. Algumas escondem hematomas. Outras convivem com cicatrizes emocionais provocadas por humilhações, ameaças e medo. Muitas permanecem em relacionamentos abusivos porque dependem financeiramente do agressor, não encontram apoio ou perderam a esperança de recomeçar.
Nenhuma mulher deveria viver assim.
É inadmissível que Mato Grosso, um dos Estados que mais cresce economicamente no Brasil, carregue também a triste marca de figurar, pelo terceiro ano consecutivo, entre os que mais registram feminicídios. Esse contraste nos envergonha e reforça que desenvolvimento só é verdadeiro quando preserva vidas e garante dignidade.
A Lei Maria da Penha, que completa 20 anos, transformou o enfrentamento da violência doméstica ao reconhecer que esse não é um problema privado, mas uma grave violação dos direitos humanos. Porém, leis, sozinhas, não mudam a realidade. Elas precisam ser cumpridas e acompanhadas por políticas públicas eficientes.
Foi com esse propósito que apresentamos iniciativas para fortalecer a proteção às mulheres em Mato Grosso. Entre elas, o Projeto de Lei nº 107/2025, que reserva vagas de emprego em contratos públicos para mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade social, oferecendo uma oportunidade concreta de reconstrução por meio da independência financeira.
Também são de nossa autoria a Lei nº 11.795/2022, que criou um guia permanente da rede de atendimento às vítimas, e a Lei nº 13.151/2025, que ampliou a mobilização dos homens pelo fim da violência contra a mulher e institucionalizou a campanha Laço Branco no calendário estadual. Afinal, homens de respeito respeitam as mulheres.
Como presidente da Assembleia Legislativa, também solicitei informações sobre a aplicação das mais de 60 leis estaduais já existentes de proteção às mulheres. O desafio não é apenas criar normas, mas fazer com que elas cheguem à vida de quem mais precisa.
Mas nenhuma lei será suficiente sem uma mudança de consciência. A violência nasce, muitas vezes, dentro de casa, alimentada pelo desrespeito, pelo machismo e pela intolerância. O lar deve ser um lugar de acolhimento, nunca de medo.
Neste Agosto Lilás, convido cada cidadão a fazer sua parte. Que acolhamos quem pede ajuda, denunciemos a violência e eduquemos nossas crianças para o respeito, a igualdade e a empatia.
Romper o silêncio é um ato de coragem. Estender a mão é um gesto de humanidade. Construir um Mato Grosso onde nenhuma mulher tenha medo de viver é uma missão de todos nós.
*Max Russi, deputado estadual e atual presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso
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