Artigo
RGA em Mato Grosso: quando a birra vira política de Estado
Por Williamon da Silva Costa
Acadêmico de Direito.
Opinião
Em Mato Grosso, a Revisão Geral Anual já não é mais um instrumento de correção salarial. Virou um teste de resistência. O governo anuncia um índice, repete números bilionários como se fossem ameaça nuclear e espera que o servidor público aceite, em silêncio, a erosão contínua do próprio salário. A inflação sobe, o custo de vida explode, mas o contracheque segue congelado, tudo em nome de uma tal “responsabilidade fiscal” que curiosamente só aparece quando o assunto é servidor.
Em 2025, o governo Mauro Mendes oferece 4,26%, exatamente o IPCA. O mínimo do mínimo. O detalhe inconveniente é que, desde 2018, os servidores estaduais acumulam perdas superiores a 19,5%. Não é aumento, não é privilégio, não é ganho real. É apenas reposição. Mas, em Mato Grosso, até repor virou ousadia.
Para efeito de comparação: um servidor que ganhava R$ 5 mil em 2018 precisaria hoje receber algo próximo de R$ 6 mil apenas para manter o mesmo padrão de vida. Não para viajar mais, não para consumir mais, apenas para não empobrecer. Mas o governo prefere tratar essa defasagem como se fosse uma abstração acadêmica, distante da realidade do supermercado, da farmácia e da conta de energia.
E sempre vem o mesmo argumento ensaiado: a RGA teria impacto de mais de R$ 1 bilhão no orçamento. O número é repetido como se fosse um ato de heroísmo resistir ao próprio funcionalismo. Curiosamente, quando se trata de obras, incentivos ou projetos politicamente rentáveis ao grupo político de Mauro Mendes, o orçamento parece subitamente mais flexível. Austeridade seletiva é o nome disso.
O que antes era leitura crítica da oposição agora virou até confissão interna de aliados. Em áudio divulgado recentemente pela mídia, o deputado estadual Paulo Araújo, aliado do governador, resolveu tirar o véu do teatro institucional. Disse, sem rodeios, que Mauro Mendes “não está preocupado com o servidor público” e,pior: “não faz mais questão nem de disfarçar”. Chegou a classificar como “absurdo” o tratamento dispensado aos servidores e o valor que o Estado paga a quem sustenta a máquina pública.
Segundo Araújo, o governador “já comprou a briga” com o funcionalismo. Não se trata de negociação, diálogo ou limitação técnica. Trata-se de birra política. O recado é claro: não importa o tamanho da perda salarial, não importa o desgaste, não importa o impacto social. O índice é esse e ponto final, na lógica do todo-poderoso MM.
Em uma das falas mais reveladoras, Araújo relata a visão do governador de que o servidor público não pode ganhar mais que o trabalhador da iniciativa privada, ignorando convenientemente as diferenças de responsabilidade, estabilidade institucional, riscos legais, exigências constitucionais e funções estratégicas do serviço público. É uma comparação rasa, populista e intelectualmente desonesta, usada para ganhar likes dos extremistas nas redes sociais.
Em tom quase resignado, Paulo Araújo admite que nem vale mais tentar convencer o governador. Já discutiu, já argumentou, já tentou. Mauro Mendes simplesmente não quer ceder. Não por falta de dinheiro, afinal, o próprio Estado admite excesso de arrecadação e resultados fiscais positivos, mas por decisão pessoal. O problema deixou de ser fiscal e passou a ser comportamental.
Não por acaso, a deputada Janaina Riva apresentou proposta para discutir a recomposição das perdas acumuladas da RGA, defendendo que o Estado reconheça o passivo histórico com os servidores. A reação do governo foi pior que silêncio, foi de desprezo pelo funcionalismo público. A proposta não interessa porque desmonta a narrativa de escassez e expõe que o problema nunca foi dinheiro, mas prioridade e picuinha pessoal do governador.
Em outra fala constrangedora, Paulo Araújo praticamente antecipa a derrota do servidor na Assembleia Legislativa: mesmo com pressão, mesmo com mobilização, o governo não pretende recuar. Traduzindo: o servidor pode lotar a galeria, protestar, gritar, o roteiro já está escrito. A votação vira apenas parte do teatro legislativo, onde o final é conhecido antes do primeiro ato.
Quando um aliado admite publicamente que o governador não quer diálogo, não se trata mais de interpretação política. É confissão. A RGA deixou de ser política pública e virou instrumento de afirmação de poder e opressão: quem manda decide, quem trabalha paga, juntamente com suas famílias.
Enquanto isso, mais de 100 mil servidores estaduais veem seu poder de compra derreter e suas famílias perecerem. Saúde, educação, meio ambiente, segurança, assistência social, áreas essenciais tratadas como custo incômodo. O Estado exige produtividade, compromisso e excelência, mas responde com arrocho, desprezo e desvalorização institucional.
O mais curioso é que esse endurecimento acontece justamente quando o calendário eleitoral começa a se desenhar e os políticos passam a mapear votos. Mauro Mendes parece apostar que a imagem de “gestor duro” compensará o desgaste com uma das maiores categorias organizadas do Estado. É uma aposta arriscada, sobretudo porque o governador parece esquecer que os servidores têm memória, formam opinião e exercem influência direta em suas comunidades e famílias.
Isso mostra, que o problema da RGA em Mato Grosso não é técnico, nem jurídico, nem financeiro. É político. É escolha. É a decisão consciente de transformar perda salarial em método de governo e de tratar servidor público como adversário permanente.
Talvez Mauro Mendes descubra, mais cedo do que imagina, que inflação não esquece, servidor não perdoa e eleição não se ganha com birra.
Porque planilha não vota.
Mas servidor, sim.
Por Williamon da Silva Costa
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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