“A Sina de Ofélia”
Os ciclos da vida e a voz que insiste em sobreviver
Opinião
A vida é feita de ciclos. Há fases de descoberta, de entrega, de dor, de silêncio e, quando se rompe o medo, de reconstrução. Cada ciclo carrega aprendizados que nem sempre são gentis, mas quase sempre necessários. Para muitas mulheres, esses ciclos são marcados não apenas pelo tempo, mas pela tentativa constante de se adaptar a um mundo que, historicamente, ensinou o silêncio como forma de sobrevivência.
A música “A Sina de Ofélia”, da cantora Luísa Sonza, que viralizou nas redes sociais, toca justamente nesse ponto sensível, a repetição de histórias femininas atravessadas pela anulação da própria voz. Inspirada na figura de Ofélia, uma personagem da tragédia Hamlet, de William Shakespeare. Jovem, sensível e obediente às expectativas impostas, ela vivia dividida entre o amor, a lealdade e o silêncio. Em uma sociedade dominada por decisões masculinas, Ofélia raramente era ouvida ou levada em consideração. Sua história se tornou símbolo do sofrimento feminino causado pela repressão emocional, pela falta de voz e pela negação do direito de sentir e se expressar. A canção simboliza mulheres que sentem, sofrem e se calam não por fraqueza, mas por imposição.
Ao longo da vida, muitas mulheres aprendem cedo que falar demais é “exagero”, que reagir é “drama”, que impor limites é “rebeldia”. Assim, o silêncio vai sendo incorporado como regra. Um silêncio que dói, que pesa, que atravessa gerações. Ainda hoje, em pleno século XXI, há mulheres que não são ouvidas em seus relacionamentos, no trabalho, na política, na própria casa.
Mas os ciclos também ensinam que nenhum silêncio é eterno. Há um momento em que a dor vira consciência, e a consciência vira voz. O ciclo muda quando a mulher se reconhece como sujeito da própria história, não mais como personagem secundária da vida de alguém.
A repercussão de “A Sina de Ofélia” mostra que essa realidade não é isolada. Milhares de mulheres se identificaram porque já viveram ou ainda vivem essa experiência de serem caladas emocionalmente, invalidadas em seus sentimentos e reduzidas à expectativa do outro.
Romper ciclos não é fácil. Exige coragem, apoio e, muitas vezes, enfrentamento. Mas é nesse rompimento que nasce um novo começo, o ciclo da mulher que fala, que ocupa espaços, que se posiciona e que transforma sua dor em força.
Dar voz às mulheres não é apenas um ato individual, é um compromisso coletivo. Porque quando uma mulher rompe o silêncio, ela abre caminho para que outras também possam falar.
E assim, pouco a pouco, os ciclos da vida deixam de ser prisões repetidas e passam a ser caminhos de liberdade.
Por: Kelly Silva
Graduada em Jornalismo e Pós Graduação em Alta Política.
Opinião
O professor brasileiro presta contas demais e decide de menos

Os números descrevem a dimensão do problema. No Global Teacher Status Index, levantamento da Varkey Foundation conduzido em 35 países, o Brasil aparece na última posição em valorização docente. Apenas 9% dos brasileiros acreditam que os alunos respeitam seus professores.
Os indicadores posteriores não corrigem o diagnóstico. O Relatório Global sobre Professores, da Unesco, aponta que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse pela docência. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a de profissionais acima de 50 cresceu 109%. Não estamos diante de uma crise de percepção. Estamos diante de uma crise de sucessão.
A causa costuma ser atribuída à remuneração. A remuneração é parte do problema, mas não o explica sozinho. O que corrói a profissão, silenciosamente, é a suspeita permanente.
Em mais de uma década de imersões em sistemas educacionais estrangeiros, observei o funcionamento inverso. Na Finlândia, a formação docente exige mestrado e a seleção admite cerca de um décimo dos candidatos. Não há inspeção nacional das escolas nem avaliação formal individualizada dos professores. A arquitetura do sistema parte de um pressuposto: quem foi rigorosamente formado não precisa ser vigiado.
Aqui, exigimos várias camadas de prestação de contas: registros, relatórios, justificativas, protocolos de comprovação. O docente passa boa parte de sua jornada demonstrando que trabalhou, em detrimento do tempo dedicado a trabalhar.
Não defendo a ausência de accountability. Dirijo instituições e sei que indicadores, metas e transparência são inegociáveis. Defendo que ela se dirija ao projeto pedagógico, e não à competência individual de quem já foi contratado justamente por possuí-la.
Existe alternativa metodológica, e ela já está em uso. Trata-se do Barômetro de Pais, instrumento de escuta sistematizado pela consultora educacional Ayla Huovi a partir de práticas finlandesas de gestão escolar.
O funcionamento é simples e a inversão que ele provoca é profunda. As perguntas dirigidas às famílias são formuladas pelos próprios professores, e não pela direção ou pela área de comunicação. As respostas são consolidadas em um conjunto reduzido de eixos direcionadores, que passam a orientar as decisões pedagógicas do período seguinte. E o resultado retorna às famílias, acompanhado do que será feito a partir dele. A sensação que a família já foi ouvida, diminui a recorrência de intromissões ao longo do período.
A diferença em relação a uma pesquisa de satisfação convencional é a natureza e o objetivo. A pesquisa de satisfação mede a percepção sobre o serviço prestado e, quase sempre, individualiza responsabilidades. O barômetro produz diagnóstico institucional. Ele não pergunta se o professor agrada; pergunta o que a escola precisa enxergar. Quando quem conhece a sala de aula define o que investigar, a escuta deixa de ser gestão de reclamações e passa a alimentar política pedagógica.
Aplicamos o método em nossas escolas e o efeito mais nítido não recaiu sobre as famílias, mas sobre a equipe. O professor que formula a pergunta assume a autoria da resposta. Ele deixa de ser objeto do levantamento e passa a ser seu condutor.
Isso reposiciona a relação com os pais. A confiança das famílias nasce de perceber que o professor detém autoridade técnica reconhecida por seus gestores. Quando a escola trata o docente como executor, a família o trata como prestador de serviço.
Reverter esse quadro é decisão de governança, não de discurso. Passa por selecionar melhor, formar continuamente, remunerar de forma compatível e sustentar publicamente as decisões pedagógicas de quem está em sala.
*Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagqoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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